
Título: O Último Compasso
Tamanho: 675 palavras
Descrição: Sabia que mais cedo ou mais tarde se cansariam, sentariam-se arfando e talvez até dormiriam no chão empoeirado. Mas, naquele momento, nada mais importava.
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Um breu esfumaçado enchia a sala, e ele não conseguia ver nada à sua frente. As únicas certezas que tinha eram a da sua própria existência e a da rosa na sua mão.
Assim que colocou os pés na sala, acenderam-se dois holofotes vindos não se sabia de onde, quase cegando-o. O primeiro incidia exatamente onde estava, e o acompanhava a cada novo passo; o segundo atingia o chão, o nada, mas deixava subentendido uma silhueta em um ponto qualquer do cômodo.
Era uma mulher, disso não tinha dúvida. Entretanto estava parada, estática, alheia à luz e a ele. Foi lentamente se aproximando, o feixe de luz contínuo e implacável circundando-o. Chegou a poucos passos da figura, ficou sem reação. Repentinamente, sentiu em suas entranhas um ímpeto de pegar na mão da estranha. Sua mão livre foi se aproximando do corpo curvilíneo, enquanto a outra apertava nervosamente a rosa e os halos iam se unindo, iluminando aos dois simultaneamente.
No instante em que se tocaram, a mulher virou a cabeça em sua direção. Os lábios carnudos, entreabertos, pareciam chamar seu nome, implorar para que tomasse alguma atitude. Agora conseguia vê-la claramente: usava um vestido vermelho que ia até a metade das coxas e meias longas, finas, negras, que realçavam ainda mais suas curvas. O cabelo estava preso em um coque, os olhos verdes fitavam-o provocantemente.
Levou a rosa à boca e puxou a mulher para perto de si, de súbito. Uma melodia fina, quase imperceptível, começou a encher-lhe os ouvidos. A estranha se virou, seus braços estenderam-se e agarraram as mãos dele, fazendo com que ele a envolvesse. Juntos, os quatro pés moveram-se harmoniosamente. Ele a virou novamente, agora fitando as duas esmeraldas. Estavam conectados por mãos, corpos e música, e dançavam seguindo a melodia que ficava cada vez mais intensa.
Era um misto de dança, frenesi, conquista, algo que ele nunca havia sentido ou vivenciado. Quem era aquela mulher, de onde ela tinha vindo e, o mais importante, como ele conseguia acompanhá-la naquele tango rápido, pecaminoso, sem nunca ter aprendido nem a dançar o mais simples dos passos? Sabia que mais cedo ou mais tarde se cansariam, sentariam-se arfando e talvez até dormiriam no chão empoeirado. Mas, naquele momento, nada mais importava.
Em uma reviravolta da música, envolveu-lhe o busto com o braço e levou-a o mais perto possível de si. Já podia sentir o doce de seus lábios, seus olhos de pantera fechando-se em um prazer profundo enquanto ele a descobria com sua língua. A visão foi tão intensa que não conseguiu torná-la real e, no outro instante, ela já havia se desvencilhado, girando para longe.
Agora era um jogo. A cada passo que ele dava, seguindo o compasso, ela se afastava, um sorriso malicioso estampado em seu rosto. Pegou a rosa que estava em seus lábios e mostrou-a, avivando na estranha uma ânsia violenta, quase inexplicável. Agora ela caminhava velozmente em sua direção, os olhos fixos no vermelho da flor, enquanto ele, assustado, recuava. Seguindo o compasso.
Jogou a rosa no chão, quase aterrorizado pela vontade insaciável daqueles olhos. Ela parou imediatamente, e a música tornou-se um simples assobio. Posicionou-se de quatro no chão, levou a boca até o talo verde e espinhento e o envolveu em seus lábios, os vermelhos se confundindo. Agora transmitia serenidade, mas continuou avançando lentamente. Incapaz de mover um músculo, ele esperou. Ela foi até onde ele estava e, com a rosa ainda presa entre os lábios, beijou-o. Durante horas - ou pelo menos foi o que lhe pareceu - ele entrou em um estado transcendental, abstrato, indescritível. Ela era insaciável e ele estava pronto para satisfazê-la em todos os seus desejos.
Uma dor. Ela se afastou, ele levou as mãos à boca. A rosa tinha lhe furado. O sangue pingou em sua camisa e, enquanto o tecido ia de branco a vermelho, sua visão foi se tornando opaca, até que nada mais existia que não a fina melodia ecoando em seus ouvidos e duas esmeraldas que olhavam-no, distanciando-se até se tornarem estrelas em um céu enevoado.