Text 9 Aug OH HAI, I’m a creep

Título: Rosas
Tamanho: 950
Descrição: Ele queria sentir raiva. O tornaria mais humano. Mas a única coisa que conseguia sentir era o sangue ainda não visto esquentando a lâmina.
PS: Folhetim ridículo. Um abraço para o amigo Álvares de Azevedo.


O portão se abriu com um rangido oco. Um jardim o esperava do outro lado, o leve murmurar da fonte e a beleza das flores contrapondo-se com a grama alta. Certamente a pessoa que cuidava da área era, no mínimo, “seletiva”. Os sapatos se moveram pelas pedras frias, emitindo ruídos surdos. Esperando.

Quem passasse pela rua sem um olhar mais atento seria incapaz de decifrar o homem dentro da casa da Sra. Greensdale, o chapéu negro de abas curtas, a casaca de couro balançando levemente na brisa da madrugada. Ele sabia que era o melhor no que fazia, e já tinha há muito se despreocupado com futilidades, como “não ser descoberto”. Ele simplesmente não era. Usava o preto não em uma tentativa de se esconder nas sombras, suas companheiras fiéis. Usava o preto porque gostava do brilho da lâmina prateada por dentro da casaca, realçado ainda mais pelo negrume. E do vermelho.

A porta tinha seus três metros de comprimento e com certeza pertencia a um estilo muito em voga talvez há seis décadas atrás. Era a analogia perfeita para toda a mansão, rodeada por uma suntuosidade poeirenta que exalava luxo e decadência na mesma baforada. A luva aconchegou suavemente a maçaneta, que girou sem fazer barulho. Não fosse por uma nesga de luz vinda do primeiro andar, poder-se-ia afirmar facilmente que a casa há muito não via um morador. No andar térreo, um vazio frio e amistoso. Perfeito.

Não havia móveis. Um lustre monumental pendia no teto, logo acima do centro do saguão redondo. Seus cristais reluziriam, caso suas lâmpadas não estivessem todas queimadas. Ou apagadas propositalmente. Do lado oposto ao homem, uma pequena porta que levava ao porão. Mas seu interesse se encontrava nas duas escadas, que saíam uma de cada lada do salão, levando ao andar superior.

Sem um ruído, seus pés se livraram dos sapatos negros. Dirigiu-se para a esquerda e começou a subir lentamente, degrau por degrau, a mão direita já enfiada por dentro da casaca, sentindo a frieza do aço. Ao pôr os pés no último batente, parou, exalando a morte antecipada. Como de costume, adaga em punho, passou o polegar pela lâmina, batizando a arma com seu próprio sangue. Estava na hora.

A mulher dormia profundamente, a respiração suave, alheia ao que iria acontecer. A luminária fraca nada mais fazia que fingir uma iluminação decente. Assim que entrou no quarto, foi projetado por todo o carpete, um clone sombrio sem alma ou rosto. Mas provavelmente mais humano.

Como mandava o ritual sentou-se na primeira cadeira que encontrou, fitando a camisola florida da vítima e repensando o trabalho. Flora Greensdale, 53 anos, viúva há sete. Pelo que pôde deduzir, havia entrado em declínio total após a morte do marido e, não tendo filhos, vivia cada dia esperando a morte. Bem, não precisaria mais esperá-la.

Não foi lhe dado um motivo; nunca lhe era dado um motivo. Apenas uma ordem e, trabalho feito, uma valise. Mesmo assim, o ínfimo resquício de humanidade que ainda possuía o levou a pensar porque alguém queria dar cabo a um ser tão insignificante ao mundo. Não seria mais fácil deixar a natureza, munida da depressão e da angústia, fazer seu trabalho voluntariamente?  Era o mundo em que vivia, e ele já tinha abandonado as tentativas de achar respostas desde que se conhecia não mais como um homem, mas como objeto.

Raiva. Não a sentia nem em seu menor significado. Talvez desejasse senti-la: teria um tom mais humano, daria ao crime um aspecto passional, munido de um objetivo claro. Mas não. Não sentia raiva e não queria se esforçar para tanto. Só os fracos matam no ímpeto dos sentimentos. E ele era o melhor no que fazia.

Aproximou-se da cama, a mulher ainda se refestelando na cama, o prazer do último sonho. Pegou novamente a adaga, o sangue ainda fresco. No entanto, antes que pudesse fazer algum movimento, viu-se encarando dois olhos de um verde puro e claro. A mulher não expressou nenhuma surpresa ao vê-lo; sorriu delicadamente e pronunciou suas últimas palavras. Estava lhe esperando. Depois que tiver acabado, pegue o envelope na cabeceira. Fechou os olhos e esperou o desfecho último.

A lâmina deslizou sobre a jugular em um movimento rápido e profissional. Estava acabado, tão rapidamente quanto a faísca de compaixão que tinha sentido com a resignação de Flora Greensdale. Era a primeira vez que sentia algo durante um de seus trabalhos. Poderia ainda ser considerado o melhor no que fazia? Sim, poderia, foi a conclusão a que chegou ao contemplar o corte majestosamente simétrico no pescoço da mulher.

Dirigiu-se à mesa e pegou o pequeno envelope de seda. Abriu-o e leu silenciosamente a caligrafia fina e a assinatura imponente, símbolo do que um dia já tinha sido a vida da vítima resignada. Foi até a cama e se deitou no chão, tentando enxergar alguma coisa no breu embaixo do móvel. Seu braço perscrutou habilmente o vão sombrio até sentir a frieza da maleta. Abriu-a, conferiu o valor e se pôs para fora do quarto.

O portão se abriu com um rangido oco, e o homem saiu na escuridão da rua deserta. Ainda não tinha conseguido achar respostas, e o ocorrido naquela noite era uma das maiores interrogações que o ocupavam no momento. Mas não se preocupava em achar o que quer que fosse. Só gostava do martelar suave das perguntas em sua mente doentia. A noite lhe pertencia, e ele era o melhor no que fazia.


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