
Ele olhou pela janela o céu encoberto por nuvens cinzentas. O asfalto ainda estava seco e quente, mas parecia que seus olhos podiam ver em câmera lenta as gotas dependuradas no céu, prestes a cair. E então veio.
De onde estava, podia observar os transeuntes desavisados correndo à procura de um abrigo, as senhoras de idade abrindo os guarda-chuvas e os cães sem dono rolando na calçada, como se aquilo fosse a melhor coisa que já lhes tinha acontecido. Estendeu o braço e sentiu as gotas caindo às centenas, aos milhares, aos milhões. Se cada uma daquelas pudesse ser uma pessoa, um amigo, um companheiro. Como seria bom apenas estender os braços e ali estariam eles, centenas de amigos cativados por um único gesto.
Mas não era assim. Nunca foi. E ele apenas continuou a fitar a abóbada celeste, tão cinzenta quanto a sua vida.